terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Capítulo 1

Cap. 1 Imprevisto
     “Talvez eu devesse continuar na cama.” O pensamento que invadiu minha cabeça por exatos dez minutos de uma segunda feira em Los Angeles. “Só hoje, eu prometo, apenas hoje!” prometi para mim mesma. Não deu certo. Levantei, calcei minha pantufa branca de coelho e fui me arrastando até o banheiro que havia no meu quarto.
     - Bom dia (seunome), preparada para mais um dia, mais escola, mais estresse? – É eu tenho mania de falar comigo mesma, principalmente na frente de espelhos.
      Após trinta e cinco minutos (passei pelo menos quinze minutos tomando coragem para encarar o chuveiro) eu já estava pronta para seguir rumo à cadeia, quer dizer, escola. Dei tchau para minha mãe que tomava café e fui caminhando até o lugar onde eu menos queria ir. Eu tinha acordado com muito sono (lógico), depois do banho continuei com sono, fui caminhando ainda com sono, e provavelmente, chegaria em casa com mais sono do que fui, o que é normal quando você vai dormir praticamente na hora de acordar, por cauda de um maldito seminário que você deve apresentar hoje.
     - Bom dia amiga. Ual, você está com uma cara ótima! O que você fez para estar tão linda assim hoje? – Jane zombou da minha cara com um sorriso gigantesco no rosto.
     - Olha, não sei bem. Acho que já nasci assim. – Eu disse fazendo minha melhor amiga soltar uma boa gargalhada. Na verdade eu estava péssima. Meus cabelos estavam despenteados, minha roupa amassada e embaixo dos meus olhos havia belas olheiras que chamavam a atenção até de um cego. Eu havia chegado à escola e sentado (despencado) em um banco de pedra, aqueles bem confortáveis sabe?
     - Conseguiu terminar a sua parte do  seminário? – Disse Jane já tirando minhas pernas do banco e sentando onde elas estavam. Nós havíamos feito o seminário juntas, mais ainda havia uma parte que eu estava terminando.
     - Olha pra mim e responda você mesma. – Eu disse me sentando, já que a fofa da minha amiga quis dividir aquele confortável (duro e horroroso) banco. “Não basta ele ser desconfortável, ainda tem que dividir?” pensei.
      - Parece que sim. – disse Jane soltando um risinho que me fez sorrir também, ou pelo menos tentar. - Eu te liguei ontem menina, mas deu que... – Jane parou de falar quando passou pela gente um menino de cabelo escuro e olhos castanhos. Era o tal Greyson Chance que todas as meninas “caiam matando” em cima, só para conseguir dele um “oi”. Não sei o porquê de ele ser o segundo mais desejado de toda a escola, ou era por ele ser bonito ou por cantar bem, e isso também não me interessava, porque além de eu não suportá-lo, ele tinha namorada, uma tal de Lauren.
      - Você devia falar com ele. – Aconselhei Jane enquanto via a expressão no rosto dela. Toda vez que Greyson passava ela ficava com uma cara super fofa, uma cara de apaixonada, que sempre me fazia rir. A mesma cara que eu fazia quando Gregory Benson, mas conhecido como Greg passava.
     - Tá maluca? Eu nunca conseguiria dizer uma palavra para ele. Na verdade, eu não iria conseguir nem chegar nele. Além do mais, ele tem namorada, e quando ele terminar com ela, tem mais umas cinquenta garotas correndo atrás dele. É só ele estalar os dedos e elas aparecem com presentinhos ou coisa do tipo. – Ela deu uma pausa. Vi uma lágrima escorrer pelo seu rosto, então ela respirou fundo e continuou com a voz um pouco trêmula. – E elas são bonitas.
     Jane realmente gostava do Greyson, só um retardado poderia não perceber isso. Ela sempre se culpava e usava argumentos do tipo “Ah, eu sou feia”, “Ah, ele nunca irá me enxergar” ou “tem muitas outras garotas por aí mais bonitas do que eu, você mesma é (seunome)!”. Eu não entendia o porquê dela se achar tão inferior. Ela era simplesmente linda. Tinha longos cabelos loiros que chegavam até a cintura, olhos bem claros, quase mel, e um rosto fino.
     - Você devia parar de ser besta e ir falar com ele sim, se você não falar com ele, e falo por você. – disse já me levantando daquele magnífico assento onde eu me encontrava sentada.
     - Você não pode fazer isso.
     - Por quê? Me dê um bom motivo.
     - Porque antes você também deveria falar com o Greg. – Ela disse um pouco alto demais, e para a minha grande sorte todos ouviram. É, eu estava com vontade de me enfiar em um buraco.
     - Quem quer falar comigo? – Greg apareceu dando para nós o seu melhor sorriso. Nós vírgula porque a essa altura Jane já tinha corrido há muito tempo e me deixado sozinha com o cara mais lindo da escola.
     - Ah... é, ah... que... – Eu não sabia o que falar, e isso era bem difícil pra mim já que sempre tive coragem de chegar e falar o que eu quisesse com quem fosse. Eu era amiga de muitos, inimiga de outros, mas no geral, me dava bem com as pessoas por eu ser muito simpática.
     - Bom, eu vou indo já que você não diz coisa com coisa. Nos vemos por aí, ah, qual seu nome mesmo? – Perguntou Greg já andando de costas.
     - (seunome) – você disse agora acordando devido ao pulo que seu coração deu quando ele te deu tchau com uma das mãos.
     “A Jane está morta!” pensei. Sai andando em direção ao banheiro feminino quando me dou de cara com Thomas.
     - Ah, oi lindo – disse dando um beijo na bochecha dele. Thomas, ou melhor, Tom, era um grande amigo. Ele era bonito, tinha o cabelo meio caído nos olhos que, para acabar com qualquer um eram azuis meio piscina e uma boca bem vermelha.
     - Você está muito bem hoje hein... – Tom disse me olhando de cima abaixo com um ar de “Você saiu de dentro de um animal, só pode”. Eu ri me lembrando de como Jane também foi irônica ao falar da minha aparência. Poxa, eu peguei a primeira roupa que vi no armário, fiz um rabo de cavalo improvisado com um elástico de prender dinheiro e calcei um chinelo qualquer (sem contar com as olheiras), é eu estava nem um pouco atraente.
     - Ah obrigado. Eu sei que sou linda – fiz pose arrancando uma risada bem gostosa do meu amigo.
     - Disso eu não posso discordar. – ele disse me fazendo rir. – Mas eaí, cadê a Jane e o Michael?
     - Bom, ainda não vi Michael e Jane saiu correndo quando o Gr... – Parei de falar antes que Tom pudesse fazer alguma pergunta sobre fracasso que foi minha “conversa” com Greg.
     - Quando Greg o que? – droga! Ele percebeu de quem eu falava.
     - Ah, nada de mais, sabe, é que, bem, ah... eu f... – Fui interrompida por Michael que acabara de chegar. Salva pelo Gongo. “Eu te amo Michael” pensei. Poxa, eu não queria dizer coisas sobre o garoto que eu gosto com outro garoto, mesmo ele sendo meu amigo.
     - Hello gente. Ual, você est... – Interrompi Michael. Ele era um amigo muito leal e bem engraçado. Tinha cabelos encaracolados e olhos verdes. Era bem magro e muito branquelo.
     - Linda eu sei – completei arrancando risadas dos meus amigos e até de mim mesma. – Pessoal, vou procurar a Jane, beijos e beijos! – Disse andando de costas e mandando um beijo para cada um, até que, já que eu era muito sortuda (um imã do azar) senti uma topada e algo quente nas minhas costas começou a pingar. Virei. Era Greyson Chance, que maravilha!
     - Ah, desculpa, desculpa mesmo! Eu não queria, é que eu não te vi andando, eu estava dando tchau pro meu amigo, ai quando virei já era tarde demais. – Ele disse tirando sua jaqueta e tentando secar meus braços que estavam sujos de café. É, ele derrubou o copo de café (por sinal muito grande para um garoto da idade dele) nas minhas costas, que consequentemente, respingou nos meus braços. Ou seria “eu me joguei no copo de café dele?”, ah sei lá, e não estava muito a fim de discutir isso comigo mesma.
     - A culpa foi minha, me desculpe você e não precisa disso – disse enquanto empurrava a jaqueta dele pra fora de contato com a minha pele. Aff, só o que me faltava era isso acontecer. Agora sim eu estava muito pior na aparência. Primeiramente eu não gostava daquele garoto por algum motivo que eu não sabia ao certo. Em segundo, naquele instante, ele parecia ser gente boa por estar preocupada comigo, o que me deixava com raiva. E em terceiro, eu estava com muita vergonha, pois havia se formado uma roda de pessoas em volta da gente, aquela roda dos fofoqueiros sabe? Pois é.
     - Para com isso menina. A culpa foi realmente minha, e olha só o que eu fiz com a sua blusa. Tá toda suja... Toma, veste. – Ele me deu sua jaqueta preta de couro para vestir. Vesti como ele mandou porque eu não poderia aparecer na aula para apresentar o seminário com a blusa suja de café, não me levariam a sério. – Ah, ficou bem em você. – Ele sorriu. Parece que ele estava sendo sincero lá no fundo. Me senti feliz por um momento até ver Greg, na roda formada em volta de mim e do Greyson, rindo sem parar apontando pra mim e comentando com os amigos. Ele deveria estar contando alguma piadinha sem graça a meu respeito. De repente, se fez um nó em minha garganta e a vontade de chorar veio à tona. Quando olhei em volta para o rosto de cada um encontrei sem querer o de Jane, que me olhava com um ar de reprovação. Fui em direção a ela, mas ela simplesmente deu meia volta e saiu. Assim senti as lágrimas rolarem pelo meu rosto. Eu estava pagando o maior mico de todos: chorando na frente de dezenas de pessoas.
     - Ei, fofa, não faça isso. Não chora, só foi um pouco de café, você não dev... – Greyson poderia continuar falando se não fosse eu o deixando falando sozinho. Corri em disparada em direção a minha melhor amiga. Achei Jane dentro do banheiro feminino. Ouvi o sinal que dava início as aulas tocar, mas não me importei.
     - Por que isso teve que acontecer logo com você? – ela disse com o rosto vermelho.
     - Isso o que? O café na minha blusa? – Olhei meio estranha para ela. – Mas o que tem?
     - Não foi com qualquer pessoa. Foi com o Greyson. Eu vi o jeito que ele te olhou. É o mesmo jeito que olho pra ele. E olha só isso – ela disse encostando a mão na jaqueta dele – ele deu a própria jaqueta pra você.
     - Mas ele só fez isso porque minha blusa estava toda suja. Ele não me deu porque gosta de mim, e além do mais, eu nunca gostei muito desse garoto, você sabe disso. – Eu disse a abraçando. Estava óbvio: ela estava com ciúmes do Greyson e com inveja de mim por isso ter acontecido comigo.
     - Me desculpa. – ela sussurrou no meu ouvido. Eu sorri e virei pra ela. – Sei que você ficaria mais feliz se isso acontecesse com o Greg.
     - Ah, falando em Greg, porque você me deixou sozinha com ele sua vaca! – eu disse cruzando os braços pra ela.
     - Achei que você devesse falar com ele a sós. – ela disse rindo.
     - Palhaça! – ri junto com ela – Mas agora não importa mais. Ele me decepcionou hoje, foi algo que parece ser bem bobo, mas pra mim, foi um grande erro.
     - O que houve? – Perguntou Jane desmanchando o sorriso.
     - Depois te conto, agora vamos pra aula porque o sinal já tocou há bastante tempo. – Disse puxando minha amiga pelo braço. Pegamos os livros no armário e fomos em direção a nossa sala de aula.
     - Com licença – ela e eu dissemos ao mesmo tempo depois de bater na porta.
     - Podem entrar, mas sejam rápidas minhas queridas. – Disse o professor de geografia enquanto nos encarava.
     Entramos correndo e nos sentamos no mesmo lugar de sempre. Peguei meu caderno, abri em uma folha em branco e escrevi uma frase com letra de forma. Dobrei a folha em oito pedaços e a entreguei enquanto o professor estava de costas. Ela abriu o bilhete e leu:     
ESTOU PRONTA PARA DURMIR. A SALA DE AULA É MAIS CONFORTÁVEL QUE AQUELE BANCO.

PS.: EU TE AMO BFF.

     Ela fechou o bilhete e o guardou em seu caderno antes que o professor pudesse pegá-lo. Olhou para mim e sorriu e eu pude ler seus lábios dizendo ”você não existe!”. Dei um risinho para ela e me afundei na cadeira, mas não consegui dormir, muito menos prestar a atenção na aula. Eu estava com o Greyson na cabeça, e sua preocupação me fazia dar um sorriso bobo. Eu nunca imaginei que ele seria tão gente boa a ponto de me dar sua jaqueta, ou só emprestar mesmo, pensei que ele era do tipo “sou foda”, mas parece que eu me enganei, e o pior de tudo, parecia que eu estava começando a pensar muito nele.

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