sábado, 6 de julho de 2013

Epílogo

     Eu estava errada. O vestido caíra perfeitamente bem sobre minha barriga de sete meses. Agora, caminhando pelo longo corredor entre os bancos da igreja, eu finalmente percebi que o tempo não parou em momento algum. Eu enfim aceitei que a vida estava passando depressa. Depressa, mas ainda nos dando de presente ótimos momentos. Quem diria que eu veria Michael todo engravatado no altar de uma igreja, com seus cachos perfeitamente organizados pelo gel, e seu sorriso tomado pelo nervosismo. No último dia de aula do ensino médio, lembro-me bem, meu amigo dissera que jamais se casaria, e que não seria domado por mulher alguma, mesmo que essa mulher fosse Jane. No fim das contas, fomos todos domados. Só que em diferentes formas.
     Senti uma pequena movimentação em meu ventre e automaticamente pus minhas mãos sobre a barriga. Ao perceber isso, Laetítia, minha primogênita, colocou suas mãozinhas em cima das minhas, para também sentir o bebê que se formava a cada segundo dentro de mim.
     - É melhor sentarmos - disse para ela, indicando os bancos mais próximos ao altar.
     Assim que me sentei, o olhar de Michael caiu sobre de mim e eu quase pude ouvir seus olhos gritarem por socorro. Eu já havia até considerado a hipótese de Jane tê-lo obrigado a se casar, mas logo em seguida me lembrei da noite em que ele roubou o microfone do apresentador do show business para fazer o pedido para minha amiga. Foi lindo.
     De repente, a marcha típica de casamentos começou a soar, e percebi minha amiga parada na porta da igreja com o braço entrelaçado ao de seu pai. Olhei para o relógio em meu pulso me perguntando onde estaria ele, mas logo minha atenção foi monopolizada para Jane que vinha expondo a todos os presentes seu sorriso mais maravilhoso. Entretanto, todas as atenções que estavam nela foram desviadas, assim que a música parou num átimo. Todos os convidados se entreolharam imaginando a pior das hipóteses, mas foi quando ouvi as primeiras notas, cantadas a capella, e encarei Jane que sorria feito boba, percebi que havia sido tudo combinado.
     Greyson, apareceu entre a banda no segundo piso da igreja, com o microfone em mãos e um sorriso estupidamente lindo no rosto. A camisa social dobrada até os cotovelos, o cabelo completamente bagunçado, e as sardas mais explícitas como nunca. Exatamente igual ao Greyson de quinze anos que conheci no primeiro ano do ensino médio. A diferença era que agora ele tinha uma carreira promissora, mais altura, mais peso, barba e uma família.
     A cerimônia se iniciou da maneira de sempre, e quando os pombinhos disseram os tão esperados "sim", e lacraram a união com um beijo, todos na igreja bateram palmas, o que me lembrou da vez em que eu acordei do coma e Greyson me pediu em namoro. Também bateram palmas para gente, na época.
     Depois do casamento, encontrei Greyson encostado à porta da igreja, as mãos no bolso, o típico sorriso encantador nos lábios. Latetítia correu para abraçá-lo, e logo já estava na corcunda do pai.
     - Pensei que seria impossível você ficar mais linda que no dia do nosso casamento, mas... - deixou a frase no ar, ao me dar um breve selinho.
     - E você está me lembrando o Greyson de dez anos atrás.
     - Isso é bom? - perguntou, enrugando o cenho.
     - Acho que sim - respondi, entrelaçando meu braço ao seu.
     Saímos da igreja apenas para entrarmos no carro e seguirmos até a praia, onde aconteceria a festa. O motivo pelo qual Jane e Michael escolheram justo esse local se dá devido à proposta de namoro que Michael propusera à Jane. Mesmo que a praia tenha sido na Austrália, valia. E como valia. Assim que chegamos lá, nos surpreendemos com a decoração. Estava tudo perfeitamente decorado, e Jane pareceu ter combinado com mar para que o mesmo não se agitasse muito. Tudo devidamente como deveria ser.
     - (Seunome), se eu te pedisse em casamento outra vez, você se casaria comigo? - perguntou Greyson, no meu ouvido. Sorri automaticamente.
     - Depende... Se eu esbarasse em você e deixasse café cair na minha blusa, você daria sua jaqueta pra mim? - perguntei, sorrindo. Laetítia já estava longe dali.
     - No fim da festa te conto o que eu te daria - respondeu, sorrindo perigosamente malicioso. - Mas você ainda não respondeu minha pergunta. Você se casaria?
     - No fim da festa eu te conto - ergui uma das sobrancelhas, sorrindo sarcástica. Greyson balançou a cabeça em negação e grudou seus lábios ao meus. Entre eu e ele, nosso outro filho se mexeu. Como se tivéssemos combinado, sorrimos entre o beijo.


     Jane havia acabado de jogar o buquê - que acabou caindo no mar, sendo levado pelas ondas - quando se sentou na areia, ao meu lado. Eu estava com a cabeça no colo de Greyson, observando Laetítia fugir das ondas.
     - Estou exausta! Nunca pensei que casar seria tão trabalhoso.
     - Espere só até ver a vida de casados - Greyson disse, sorrindo desafiador para mim.
     - O que você quer dizer com isso? - retruquei.
     - Que ela vale a pena o esforço feito no dia do casamento?
     - Agora sim. - Sorri.
     - Cheguei e cheguei com champanhe - disse Michael, se jogando na areia, ao lado de sua mulher. - Uma taça pro rapaz aqui - entregou a taça para Greyson -, uma pra minha mulherzinha linda - entregou uma à Jane -, e outra pra mim. A (seunome) não pode porque tá prenha.
     - Prenha, Michael. Prenha? - declarou indignada Jane, rolando os olhos. Como de costume. Mais uma vez na mesma noite, tive a sensação de voltar aos velhos tempos.
     - Mas me contem, aonde o casalzinho vai passar a lua-de-mel? - perguntei.
     - No lugar onde os sonhos se realizam - respondeu Michael, galanteador.
     - Disney? - indagou Greyson.
     - Não, cara. Austrália - respondeu Michael, sorrindo e beijando a testa da minha amiga. - E vocês também irão conosco. E, ah... Surpresa!
     - Como assim? - me sentei de súbito.
     - Era pra contarmos só no dia da viagem, mas acho que vocês merecem ir se preparando - Jane falou. - Nós queremos ir com vocês, como sempre aconteceu. A Austrália em que queremos passar a lua-de-mel não é só a Austrália geográfica. Mas a nossa Austrália. A que construímos em todas as viagens. E pra isso, logicamente precisamos de vocês.
     - Quer dizer, quase será a mesma Austrália. Vai faltar alguém - declarou Michael, e Jane o encarou repreensiva.
     - Mas o Cody e Allie estarão lá, como sempre - disse, sorrindo. Eu sabia do que Michael estava falando, só não tinha coragem de entrar no assunto.
     - Não é disso que ele está falando, amor - Greyson quase murmurou. Encarei-o com pesar, e assenti com a cabeça.  Não adiantava, de qualquer forma. Sempre chegaríamos àquele ponto. Não dava para de repente esquecer que uma amigo se fora.
     - Tom não vai estar lá fisicamente, mas eu sei que vai estar lá de outra forma. Ele sempre está com a gente - disse Jane, segurando minha mão.
     Tom havia falecido no último ano do ensino médio. O que ninguém sabia nem esperava, era que o garoto tão cheio de vida escondia um perigosíssimo câncer nos ossos. Ninguém nunca havia percebido que sua aparência estava radicalmente mudada. Só viemos a perceber a doença quando o esperamos chegar na escola para lhe desejar um feliz aniversário e ele não apareceu. Nem no primeiro tempo, nem no segundo, nem pelo resto do dia, nem nunca mais. Não tivemos nem oportunidade de nos despedir. Tão repentinamente como a doença apareceu, ela o levou embora.
     - Eu sei que está - respondi, sorrindo. Eu estava bem, na verdade. Já haviam se passado dez anos. - Acho que vocês deveriam aproveitar a noite - indaguei.
     - Olha só como é a brasileira! É convidada mas ainda assim nos expulsa da nossa própria festa! - declarou Jane, fingindo chateação.
     Então os dois de levantaram e correram para longe. Assim que não pude mais vê-los, deitei a cabeça novamente no colo de Greyson e passei a encarar as estrelas.
     - Você me deve uma resposta - lembrou ele.
     - Sim.
     - Sim?
     - Sim, Greyson. Se você me pedisse em casamento mil vezes, mil vezes eu diria sim.
     - Então você quer se casar comigo? - perguntou risonho.
     - Quero, meu amor.
     - Quer se casar comigo?
     - Quero.
     - Quer se casar comigo?
     - Sim, sim e sim!
     Rimos sozinhos. Depois, voltamos nossos olhos ao céu que exibia estrelas, algumas poucas nuvens e a lua. A lua que me fez voltar ao passado pela terceira vez na noite,
     - Lembra que eu te jurei que duraria enquanto fôssemos felizes? - perguntei e vi Greyson assentir com a cabeça. - Eu jurei certo.
     Então esperei que seus lábios chegassem aos meus, o que aconteceu segundos depois, assim que a nuvem que cobria a lua tomou outro rumo. A luz do luar, selamos nossos lábios. Outra vez.

2 comentários:

  1. Puutz Mi esse epílogo ta perfeito,tipo final feliz :3 A demora valeu a pena...

    Ju.

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  2. Como assim o tom morreu? Mano chorei, juro, quase solucei de tanto chorar

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